O adeus ao amigo Hugo

2010
10.04

Cheguei há pouco da cerimônia de cremação do corpo do amigo José Hugo Moure Padovani, que foi meu colega de trabalho e chefe no Banco do Brasil de Guarulhos e, por breve período, também na vila Galvão.

Não é uma cerimônia tão pesada quanto a de um enterro, mas é inevitável a emoção que nos toca no momento da última homenagem. Principalmente, entre os parentes mais próximos, que conviviam mais intensamente com ele.

Na mensagem que transmitiram aos presentes, seu filho Flávio e uma sobrinha enfatizaram o quanto Hugo era uma pessoa bem humorada e o quanto foi forte para lutar contra o câncer que o acometeu. Há alguns anos, precisou extrair o estômago e encarou isso de uma forma tão natural, manteve com tal altivez atividades como caminhar pelo bosque Maia, que a todos surpreendia pela força de vontade que demonstrava, pelo ânimo que irradiava, tirando tudo “de letra”. Há alguns meses, começou a sentir dores próximas ao ombro, mas não se tratava de algum problema ortopédico, e sim um novo câncer, que acabou por tirar-lhe a vida, aos 66 anos.

Fui subordinado a ele, em Guarulhos, e foi o período em que pude conhecê-lo melhor. Nosso contato anterior, havia sido breve. Quando assumi como caixa em Guarulhos, em 31.03.1976, ele havia sido nomeado recentemente para a seção de Cadastro. Em uma das primeiras reuniões de que participei, o coordenador dos caixas, Pelaio Álvares Júnior, também já de saudosa memória, referiu-se a um problema que alguém relatou de dificuldade de obter documentos rapidamente no Cadastro, dizendo: “Mas, agora isso acabou. Quem assumiu lá foi o nosso Hugo!”. Na vila Galvão, que era uma subagência que funcionava na avenida Sete de Setembro, eu às vezes ia substituir algum caixa e por pouco tempo o Hugo estava no lugar do Gaudie-Ley, outro excelente amigo dos muitos que, graças a Deus, conquistei nos quase 23 anos em que atuei no BB.

Quando ele foi meu chefe, no setor de Recuperação de Créditos, recordo-me perfeitamente que, qualquer que fosse o assunto que estivéssemos tratando, ele pegava a lapiseira, ajustava o tamanho da ponta do grafite, apertando seguidamente a tampinha, e punha-se a escrever ou rabiscar no “risque-rabisque” ou em qualquer papel que tivesse por perto. Se ia explicar onde ficava um endereço, desenhava um mapinha e gesticulava muito para fazer-se entender.

De tudo ele fazia piada e, aliás, adorava contar anedotas, o que eu também aprecio. Todo dia, tínhamos alguma para contar um ao outro. Nosso setor tinha a sigla de “Recre”, aludindo à tarefa a que se resumia nossa atividade, recuperar créditos, mas, trabalhando com o Hugo, era uma recreação.

A família de Hugo é um capítulo à parte, que não pode passar sem comentário. Ele e outro colega do Banco, o Carlos Mariano Fernandes, mais conhecido como Mariano ou “Irmãozinho”, eram casados com duas irmãs e sempre me impressionou o quanto eles e o restante da família eram unidos, sempre juntos em todas as atividades de que participavam na AABB, o clube do Banco do Brasil Guarulhos, na vila Rio.

Há poucos meses, era comum eu encontrá-los caminhando no Bosque Maia. As irmãs um pouco à frente, eles atrás sempre batendo papo, comentando futebol, mexendo com um outro que também tem hábito de caminhar ali, sobre o resultado de algum jogo. Aliás, o Hugo, que jogava muito bem no time do banco, era torcedor fanático do São Paulo e estava vestido com a camisa do time no momento do adeus, hoje à tarde no Cemitério Primaveras.

Na cerimônia, mais uma vez, pude comprovar o quanto é bonita sua família, o carinho de uns com os outros, a atenção para com todos os amigos que ali foram para homenagear o amigo. Comovente, confortante, maravilhoso de ver, em uma época na qual tantos irmãos sequer se falam, motivados por coisas tão insignificantes como dinheiro, divisão de bens, etc.

A imagem que vamos guardar do Hugo é daquele cara gozador, brincalhão, que via motivo para piada em tudo e em todos e que deixa como legado seu apego à vida, sua alegria e, mais que tudo isso, exemplos para todos nós. Onde quer que esteja, do outro lado do caminho, como dito na mensagem que foi lida na cerimônia de despedida, estará batendo um bolão.

Vai que é tua, Hugo! Bate de canhota, que você é um craque!

Your Reply