Este é o texto do artigo publicado na edição de ontem do Diário de Guarulhos, comemorativa de seus 30 anos de circulação ininterrupta:
Ainda na adolescência, aprendi que a comunicação deve estar a serviço da população. Eu morava em São Paulo, no bairro do Sapopemba, quando o amigo Francisco Plaza, que havia ficado cego quando criança, instalou um serviço de alto-falantes, com o qual ganhava algum dinheiro vendendo publicidade ao comércio local.
Era uma espécie de rádio comunitária, que tocava música, anunciava aniversários, divulgava campanhas de vacinação e encaminhava reivindicações às repartições; enfim, funcionava como um órgão de utilidade pública.
Ajudando o Plaza a identificar os discos com etiquetas que ele escrevia em Braile, peguei gosto pela comunicação, por perceber o quanto aquilo era útil às pessoas. Pelos alto-falantes, um morador conseguia o remédio do qual precisava, uma senhora obtinha emprestado um par de muletas e as crianças eram chamadas a se reunir em uma rua sem saída para participar de animadas gincanas.
Como o som não ia muito distante, surgiu a ideia de lançar um jornalzinho mimeografado, que distribuíamos de porta em porta para espalhar mais as informações.
No Colégio Estadual Anne Frank, no bairro do Brás, onde cursei o ginásio e o colegial, fiz parte da equipe que manteve por cinco anos um jornal, também impresso em um rudimentar mimeógrafo, mas que cumpria a tarefa de promover a integração entre as várias salas e séries.
No Banco do Brasil, onde trabalhei nas agências da vila Maria e em Guarulhos, editei jornais internos, divulgando as atividades esportivas, sociais e culturais.
Vindo a residir no Parque Cecap, em 1975, engajei-me rapidamente na administração do condomínio e fui, em 1977, um dos membros fundadores do Conselho Comunitário do Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães, o qual tinha como uma das finalidades ser um órgão representativo dos moradores de todos os condomínios.
Quando o presidente executivo da entidade era Horivaldo Laurival Pedroso, ele me convidou a assumir o Departamento de Jornalismo. Concluímos pela necessidade de imprimir um informativo para distribuir nos apartamentos. Fizemos umas três edições. Mas, custava caro, não tinha fotos e não era atraía anunciantes. Surgiu, aí, a ideia de lançar um jornal. Em novembro de 1979, circulava o Comunicação, um tabloide de quatro páginas, que passou a ter oito páginas tempos depois e teve exatas treze edições mensais.
Na época, eu era casado com Elisabetta, que também se engajou no trabalho voluntário de vender anúncios, ouvir a população, redigir matérias, tirar fotos, acompanhar o serviço de diagramação e montagem, chegando a passar várias madrugadas na gráfica que imprimia o jornal, em Bonsucesso. E ainda arregimentamos vários colaboradores, que cumpriam a árdua missão de entregar os exemplares pelas escadarias do Cecap, a cada mês.
Na 12ª edição, soubemos que quase toda a diretoria do Conselho filiara-se ao partido político do então governador biônico Paulo Maluf. Nessas condições, recusamo-nos a continuar fazendo aquele trabalho voluntário. Ao informar que iríamos parar de editar o Comunicação, fomos incentivados a lançar comercialmente um jornal, pois a repercussão do que fazíamos era muito positiva.
Assim, em 31 de janeiro de 1981, nascia o Jornal Olho Vivo. O nome era o da coluna mais comentada do Comunicação, a que pegava no pé das autoridades e criticava quem tomava atitudes que iam contra o direito da maioria dos moradores.
Nos primeiros meses, o Olho Vivo continuou circulando apenas no Parque Cecap, cujo número de apartamentos foi aumentando, até atingir 4.680 unidades. Para obter mais anunciantes e custear a publicação, decidimos começar a circular também nas ruas comerciais do Centro de Guarulhos e em alguns outros conjuntos residenciais. Não podíamos imaginar que aquele despretensioso jornal mensal viesse a se transformar no mais importante veículo de comunicação da cidade. Mas era esse o destino do Olho Vivo.
Em 1983, a periodicidade passou a ser quinzenal. Mais alguns anos, semanal. Depois, duas vezes por semana, e, por vários anos, trissemanal. Até que, em 2007, já dividindo a direção com Alexandre Polesi e Paulo Carneiro, reunimos condições de transformá-lo no Diário de Guarulhos.
Não tenho dúvidas de que o que propiciou o contínuo crescimento do jornal foi a capacidade que desenvolvemos de ouvir as pessoas e de, assim, publicar as notícias que interessavam de perto aos leitores.
A lógica que sempre nos norteou é a de que o jornal precisa ser a voz de quem não tem voz. Fazer chegar seus reclamos e opiniões a quem tem poder e dever para tomar as providências. Forma-se assim o círculo virtuoso, onde todos ganham: a população se queixa, o jornal divulga, as autoridades tomam conhecimento e, à medida do possível, resolvem os problemas.
Não foram poucas as batalhas nas quais o então Olho Vivo se envolveu, buscando sempre contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população, combatendo a corrupção e os desmandos na administração pública, ajudando a construir uma sociedade participativa e com consciência do que é o exercício da cidadania. A Guarulhos de hoje, apesar de tudo que ainda deve a seus munícipes, é resultado do trabalho de muitos. E o jornal colaborou – decisivamente – com o desenvolvimento da cidade.
Olho para trás e vejo que valeu a pena não sonhar pequeno. Desde março de 2009, deixei o Diário de Guarulhos, mas sinto ter cumprido a missão que me cabia e fico feliz ao vê-lo comemorar 30 anos de indiscutível sucesso, com uma promissora trajetória a trilhar.
Valdir Carleto
Obs.: Uma falha minha, imperdoável, foi ter omitido um agradecimento a todas as pessoas que me ajudaram a construir esse sonho, pois tive a felicidade de sempre me cercar de gente criativa e empenhada em fazer o melhor.