Conheci esse poema ao ouvir uma fita cassete que me foi presenteada por Marcelo Toffoli, que atuou como sonoplasta na peça “Brasileiro, profissão esperança”, que juntou os talentos da cantora Clara Nunes com o megaator Paulo Gracindo, nos anos 70. Declamado por Gracindo, o poema ganha uma força indescritível. Cometi a heresia de declamá-lo em algumas ocasiões, retirando alguns termos que entendi que chocariam a plateia. Talvez eu o inclua na nova versão de Versos Roubados que pretendo encenar no segundo semestre. Aqui, o poema de José Regio, poeta português, é reproduzido na íntegra.
CÂNTICO NEGRO
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou:
Sei que não vou por aí!
Aproveitando a onda nostálgica e romântica que se abateu no blog, com tantas lembranças
de cantores, autores de letras maravilhosas, filmes, etc., não posso deixar de dizer que sou muito fã de Kleiton e Kledir. Olha só: eles estarão fazendo um show em praça pública em Atibaia (praça Claudino Alves), ou seja, ao ar livre, no dia 26 de junho (próximo sábado), às 21h. Ah, é grátis. Também não deixem de dar uma olhadinha no blog deles. Está sensacional.