Não se fala em outra coisa. Estão todos perplexos com o crime perpetrado dentro do hipermercado Extra do Jardim Maia, quando um rapaz de 27 anos, sem mais, nem menos, esfaqueou três pessoas, matando uma delas, um senhor chinês, de 60 anos.
Alguns apressam-se em apontar responsabilidade do Extra, porque a faca usado no crime estava ao alcance das mãos de qualquer um. Parece-me uma conclusão precipitada, pois há facas à venda em qualquer supermercado do país e em lojas de ferragens e de utilidades domésticas, geralmente disponíveis em bancadas baixas, até alcançáveis por crianças.
Testemunhas apontam que os seguranças ficaram inertes, mesmo após o criminoso ter feito a primeira e a segunda vítimas. É lógico que os fatos precisam ser apurados e, se houve negligência de alguém, que sejam assumidas as responsabilidades. Mas, dependendo de quantos minutos tenham transcorrido e do aparato com que os seguranças podiam contar, não sei se teria sido possível conter o tresloucado.
O episódio me fez lembrar um outro que presenciei, em 1986, quando eu era funcionário do Banco do Brasil, na agência da rua Felício Marcondes, em Guarulhos.
Um aposentado queria receber o valor do INSS em um dia anterior ao que correspondia ao seu número de benefício. O caixa encaminhou o idoso para o supervisor e o homem passou a tentar desferir golpes de faca contra o funcionário. Tumulto geral, os vigilantes correram para conter o aposentado. Colocado frente a frente com o homem, um dos vigilantes acabou disparando um tiro, que veio a atingir um jovem funcionário de outro setor que viera à plataforma de atendimento ver o que ocorria. O colega de serviço morreu quase de imediato.
Na sequência, outro vigia tentou conter o homem alucinado e acabou baleando-o mortalmente.
Foram cenas que jamais sairão da mente de todos que a assistiram. Fico imaginando o que poderia ter acontecido no Extra se os seguranças usassem armas de fogo para tentar impedir que o jovem ferisse outras pessoas.
Salvo melhor juízo, parece-me ter sido uma fatalidade, que pode ocorrer com qualquer um de nós, em qualquer lugar. Nunca estamos cem por cento seguros, em local algum. Quem garante que, em um ponto de ônibus, na rua, na escola, no açougue, onde quer que seja, não apareça alguém totalmente fora do juízo normal, e desfira golpes de faca ou saia atirando, como tem acontecido em países ditos desenvolvidos, com relativa frequência.
O problema está no ser humano. As pessoas estão cada vez mais confusas, buscando êxito em coisas erradas, procurando a felicidade em comportamentos estranhos; ansiosas, apreensivas, parece que nunca estão satisfeitas.
O ser humano cada vez tem mais conhecimento científico, realiza proezas antes impensáveis, mas não se conhece, não tem ideia do poder da própria mente. E se for feita uma análise pormenorizada, é possível que o percentual de pessoas desequilibradas mentalmente seja muito maior do que possa parecer à primeira vista.