Posso parecer suspeito para comentar a peça “A Sombra”, em cartaz na Casa dos Cordéis, por ser pai da diretora do espetáculo e do grupo Teatro Provisório, Simone Carleto. Mas, mesmo assim, atrevo-me a fazê-lo.
Digo atrevo-me, porque eu me considero um semianalfabeto em teatro. Não são raras as vezes que divirjo da Simone, sobre peças a que fomos assistir juntos ou sobre peças das quais ela participou.
Minha visão é muito senso comum e para comentar corretamente seria desejável conhecimento mais profundo do assunto, como linguagens, estética e estilos.
Já assisti três vezes à nova peça e confesso que a cada encenação descubro novas nuances, entendo partes que não havia entendido, mas, ainda assim, não entendi exatamente o que o autor do texto, Felipe Aizawa, buscou transmitir. Observo o semblante dos outros espectadores e todos deixam transparecer que saem da peça com mais dúvidas do que certezas.
Confortante é que fatalmente saem também com um convite mental para refletir sobre suas próprias vidas. Afinal, a escritora, personagem central de “A Sombra”, passa o tempo todo pensando o que fazer com cada personagem do livro que está escrevendo e se envolve de tal forma, que já não sabe o que é realidade e o que é ficção. Cada um de nós é um pouco o andarilho que se recusa a responder por que anda tanto, nem sabe qual direção seguir. Cada um de nós é um pouco o homem que todos os dias lê seu jornal e espera pelo ônibus, que nem sempre vem. Cada um de nós é o marido da escritora, competindo com seres imaginários que a atormentam e pelos quais ela nutre inusitada paixão. Cada um de nós é a escritora, preocupados sempre como agir com as pessoas com quem convivemos, como se dependesse de nós o que cada uma delas fará de sua vida.
O resultado geral me agrada. O desempenho dos atores me surpreendeu positivamente, principalmente nos momentos em que falam encarando o espectador, quando destilam fina ironia e quando transformam o silêncio em maior expressão. A trilha sonora é compatível com as cenas, salvo um ou outro instante nos quais chega a prejudicar ouvir o que os atores estão dizendo.
A criatividade e dedicação do grupo para superar obstáculos da produção é quase comovente, como é comovente o cotidiano de Bosco Maciel para viabilizar a Casa dos Cordéis. O espaço teve de ser reinventado para exibir a peça e mostrou-se bem adaptado para o tipo de encenação que o grupo montou.
Por tudo isso, vale ir assistir “A Sombra”, em uma das quatro apresentações que ainda serão feitas nessa temporada. Sábados e domingos, às 20h, até 2 de maio. Os ingressos custam R$ 20, mas estudantes, idosos, professores e leitores da revista Weekend pagam meia. A Casa dos Cordéis fica na av. Torres Tibagy, 90 (Anel Viário, a poucos metros da caixa d´água do Saae da avenida Emílio Ribas).
Muito boa a crítica! O nobre jornalista deveria ter concorrido a uma vaga recém divulgada pela Folha de SP! Sua compreensão do espetáculo é bastante próxima do que buscamos expressar, embora a obra seja aberta a quaisquer apreensões, estabelecimento de nexos e relações entre os fatos apresentados. Talvez seu profundo conhecimento a meu respeito tenha facilitado sua fruição. Afinal, quem convive comigo é atleta em superar conflitos, questionamentos e precisa sempre ir um pouco mais, acompanhando uma espécie de busca incansável, que não sei se aprendi ou se ensino. Qual será o segredo da sombra?
Simone Carleto
simonecarleto@uol.com.br
Aprecio o que o Carleto escreve, mas discordo de usar o editorial para promover o trabalho da filha. Falta de assunto ou a família que joga confete unida permanece unida? Quase me convenceram a ir ver a peça; vou se arrumo tempo para assistir neste fim de semana.
Assisti à peça nesse feriado e ratifico as informações contidas no post e digo mais: A peça é maravilhosa! O texto é perfeito, a intensidade dos atores é trasmitida através do olhar, olhar esse que fica bem próximo do público pois o espaço de apresentação é pequeno, o que torna o espetáculo intimista e delicioso! Enfim, adorei! Parabéns a todos envolvidos no projeto!